segunda-feira, 6 de abril de 2020

CONHEÇA A HISTÓRIA DE TONINHO ORELHA BRANCA - ESCRITOR AUTODIDATA QUE MORREU AOS 72 ANOS


Foto: Itamaury Teles
O escritor Antônio Fernandes Guimarães, mais conhecido como Toninho Orelha Branca, faleceu no final da tarde desta segunda-feira, dia 06 de abril, em Porteirinha. Autodidata e apaixonado pela língua portuguesa, Tob, como era carinhosamente chamado por seus amigos, deixou esposa, quatro filhos e dois netos. Foi colunista da Folha de Porteirinha e Região desde a primeira edição e redator oficial da Prefeitura por décadas. Regionalista nos costumes e muito erudito nas palavras, ele adorava uma cachaça, dobradinha, mocotó e demais simplicidades sertanejas, mas quando se  tratava de seus escritos, não economizava nas refinadas palavras e sempre buscava expressões cultas que enriqueciam seus textos.

Em 2017, o jornalista Daniel Cristian fez uma reportagem especial sobre a vida de Sr. Antônio. Confira e conheça um pouco mais desse grande ser humano que deixará saudades nos corações dos familiares, amigos e leitores. Ao mestre Toninho, nossa gratidão!

ANTÔNIO FERNANDES GUIMARÃES, UM AUTODIDATA APAIXONADO PELA ARTE DE ESCREVER
           
Por Daniel Cristian
Foto: Daniel Cristian

Olhar profundo, como de quem está apenas observando. Pouca fala, para não chamar a atenção, mas com uma disposição de menino para viver e fazer aquilo que sempre gostou: desenhar os detalhes da vida com a escrita. Nome de origem portuguesa e raízes fincadas em solo norte-mineiro, Antônio Fernandes Guimarães, também conhecido como Toninho Orelha Branca, apelido carinhoso atribuído pelos colegas ao longo dos anos, foi descoberto através das letras. De origem simples, nasceu em 1º de novembro de 1947, em Mato Verde, município interiorano das Minas Gerais. Terceiro, de uma família de oito filhos, do humilde casal Olímpio Fernandes Guimarães, pequeno comerciante, e Carmelita Ribeiro Guimarães, doméstica, Antônio, em razão das circunstâncias adversas que enfrentaram, aprendeu, desde criança, a lidar com os altos e baixos da vida.

Aos sete anos, como qualquer criança normal para essa idade, além de envolver-se com o encantamento do carrinho de boi e outros brinquedos da época, ele já começava a passear pelo mundo da leitura. Com uma memória que nunca falha, ele se recorda de seus livros de cordel. “Antigamente, cordel era o meu preferido e foram todos adquiridos na feira. Contava histórias ricas de lampião, dos nordestinos”, conta. Como inspiração nata, a escrita era uma possibilidade promissora para quando chegasse a hora do jovem TOB, abreviatura de seu apelido, se decidisse pela carreira e, por isso, se engajou em muitas atividades relacionadas: no colégio era um dos que escreviam o jornal dos estudantes e, pela sua dedicação, chegou a ser selecionado para o Colégio Irmãs Maristas, onde seria preparado para ser padre. Com a notícia, na família era só festa. “Isso se dava ao meu esforço e à leitura, mas não era o meu destino”, convence-se. E nem a conclusão dos estudos era seu destino.

Tempos mais tarde, já em 1966, no Ginásio, Antônio foi submetido a um exame para aprovação nas matérias, porém, por conta de uma reprovação em Inglês, decidiu abandonar os estudos. E abandonou. “Antigamente, meus pais eram simples e não puderam me impedir de fazer essa besteira, da qual hoje me arrependo, pois foi um erro crasso, grosseiro”, explica.  Com isso, esse jovem sonhador se voltou ao trabalho: foi garçom no Clube Social, em restaurantes e bares, morou em outros municípios e trabalhou em serviços diversos. Mas sua formação na verdade foi autodidata, já que não concluiu os estudos para que pudesse almejar uma faculdade e a conclusão de um curso superior.

Antônio enfrentou muitos desafios após o abandono dos estudos e decidiu que era hora de prestar concursos públicos para sua estabilidade financeira. Em 1968, com muita fé e entusiasmo, inscreveu-se, competindo com dezenas de candidatos, para um Concurso do Banco do Nordeste do Brasil para a função de Contínuo/Servente. Considerando a sua escolaridade, as chances eram improváveis, mas o desejo de vencer falava maior que a realidade. Como não tinha dinheiro para se preparar com materiais comprados, ele se virava como podia: livros emprestados e notícias de jornais, aliados a dois instrumentos de sua propriedade: a leitura e a escrita. Pouco tempo depois, ele recebera a notícia: a aprovação em 3º lugar no Concurso. “Foi um susto, porque era muita gente. Estava morando no Ramalhudo dos Mártires, na parte mais distante da sede do município de Porteirinha, trabalhando em serviços braçais”, relembra emocionado. Ele não chegou a ocupar a vaga no banco, devido ao número limitado de vagas para aquela função.

E o tempo para esse autodidata não o decepciona nunca. Em 1997, com 50 anos, prestou e foi aprovado no Concurso na Prefeitura de Porteirinha, quando era ainda funcionário contratado, onde ainda exerce a função de escrita. Desde o início da carreira, TOB cumpre o mesmo ritual de sempre. É o primeiro a chegar ao trabalho e, quase sempre, o primeiro a sair, sempre muito pontual com os horários. Ao acordar pela manhã, se prepara para mais um dia de rotina, que é a de escrever as correspondências da Prefeitura. Deixa a sua casa todos os dias às 6h30 pra apreciar o nascer do sol, o canto dos pássaros e o acordar veloz da cidade. “Nada se compara chegar ao trabalho depois de apreciar tanta beleza natural. É como se fosse uma injeção de ânimo”, explica. 

Sentado em uma mesa de escritório quadrada, sobre ela um computador, livros de
Em 1980, Toninho e o pequeno Eric 
Daniel, filho do amigo João Cantuária
leitura diária e um pote com algodão, clips e canetas. Como de costume, escreve diariamente as correspondências oficiais do órgão público. A cena já faz parte da rotina de TOB, há décadas. “Já perdi a conta de quantos ofícios já escrevi. O que sei é que foram muitos, sendo que alguns foram encaminhados até para a presidência da república”. Duas curiosidades na sala e na maneira do auditada chamam a atenção de longe: a primeira é uma antiga máquina de escrever escorada no chão, ao lado de sua mesa de trabalho. Antônio hoje ainda possui a Olivetti College como objeto de decoração de sua sala de trabalho, mas em sua fala emocionada e olhos minados de lágrimas, como quem segura o choro, ele deixa escapar outras memórias do passado. “Fui criado na época da máquina de escrever. Aquele barulho, o ‘tec-tec-tec’, era a minha meditação. Muitos dos meus textos que ainda guardo possuem essa marca de escrever em preto e vermelho, inconfundível, levado pelo tempo. É um hábito que ainda está enraizado em mim, pensei que escreveria assim por toda minha vida. Mas tive que parar”.  

Diante das novas tecnologias digitais, TOB se viu em uma grande encruzilhada sem uma direção para onde ir. Para não se tornar um totalmente analfabeto digital, precisou encarar os novos botões da máquina, o mouse e todos os processadores do computador, que nem de longe se pareciam com aquela que ele mantinha um casamento de escrita duradouro. “Nela, a máquina de escrever, foram redigidos boa parte dos meus textos, artigos, acrósticos e críticas aos jornais”, conta. “Nela era mais simples, bastava colocar a folha, alinhar na máquina e escrever, escrever e escrever até preencher toda a folha”, relembra. Hoje, TOB possui um computador e, para aprender, nem foi preciso aperfeiçoamento, na verdade, bastou a curiosidade para identificar a existência do Word e as teclas principais para formatação e pesquisa.

             Uma segunda curiosidade é um tanto quanto estranha. Desde que passou a utilizar o computador, escrever para ele passou a ser em um único arquivo de Word, que hoje passam das 1.000 páginas, e que com muita facilidade sabe onde localizar cada um de seus ofícios e correspondências. Esses anos também foram cruciais para outras tarefas do autodidata. Uma delas é que, enquanto escritor, ele possui uma característica única e inconfundível: gosta de homenagear as pessoas com acrósticos. Essa prática é direcionada aos amigos íntimos e neles, o autodidata descreve as pessoas, acontecimentos e lugares.

Se o mundo da escrita permite a todos escalar horizontes, para TOB isso é ainda mais animador. Ele pode escrever sobre o que desejar. Desde 1966, participou de muitas campanhas políticas no município, o que lhe rendeu muitos escritos. São textos de sua memória sobre a maneira como os candidatos se portavam no palanque, as estratégias de cada um deles, o histórico de candidaturas e outras afinidades mais. E ele fez questão de espalhar várias cópias nas escolas, bibliotecas do pequeno município sertanejo e entre seus melhores amigos.

A saudade desta época é visível em sua expressão e o motivo é facilmente descoberto. “A política atual não é como daquela época. Ela está aí decepcionando de norte a sul”, lamenta. Por acreditar que, como cidadão, tem o dever de contribuir com a discussão política no Brasil, ele passou a escrever sobre esse tema e não apenas comentar suas andanças. Nos jornais de maior circulação do Estado de Minas, foram mais de 60 textos publicados nas páginas de opinião dos leitores. Alguns textos não foram publicados por conterem assuntos polêmicos.

Com as lembranças ainda muito vivas em sua memória, ele se lembra de alguns momentos com amigos também apaixonados pelas Letras. Um deles é o jornalista Itamaury Teles, amigo de infância, carinhosamente chamado por ele de Táma. Conhecidos desde meninos, os dois acompanharam a evolução um do outro com o relacionamento com os livros. “Ganhei do meu amigo o livro “Urubu de Gravata” e sinto muito orgulho de ter recebido o livro autografado por um amigo tão próximo e que muito admiro”, destaca.

Agora, quase nos 71 anos, Toninho passou a colaborar com a Folha de Porteirinha e
Foto: Daniel Cristian
Região, um jornal impresso de circulação regional. Em sua coluna, o escritor faz questão de expor suas crônicas, sempre reflexivas, fatos da vida, contos e curiosidades. Tão brilhantes como seus acrósticos, são seus textos de opinião sobre cultural, política e vida. “É uma honra poder contar com os escritos de Toninho Orelha Branca em nosso jornal. Temos gratidão por ele nos brindar com suas sábias palavras e reflexões e além de tudo contribuir para que nosso jornal cumpra de fato a missão de valorizar a cultura e o povo de nossa terra”, conta Helen Borborema, amiga de TOB e diretora geral do jornal.

Ao longo da vida, os incontáveis livros, leituras e autores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector e tantos outros sempre o acompanharam, dias e noites, em imensuráveis narrativas recheadas de emoção e conhecimento que construíram o perfil do auditada da maneira como é conhecido hoje: crítico, observador e com sensibilidade para a vida. O transbordar de alegria é visível quando o escritor se refere ao seu maior amor, que tem nome e pode ser medido em alguns números: sua família, composta por sua esposa Dona Ângela Maria de Jesus Guimarães, seus quatro filhos carinhosamente nomeados por ele: Mírian Mariana Fernandes Guimarães, Antônio Gradson D’Ângeles Fernandes Guimarães, Abrahan Pallacius Olímpio Carmelito Fernandes Guimarães, Mateus Ariosto Fernandes Guimarães e seu neto Álefe Dominick Guimarães. E, claro, seus escritos. TOB conta que é feliz, “graças a Deus”, um homem vivido e de muitas boas histórias para contar e escrever.








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