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Foto: Itamaury Teles |
Em 2017, o jornalista Daniel Cristian fez uma reportagem
especial sobre a vida de Sr. Antônio. Confira e conheça um pouco mais desse
grande ser humano que deixará saudades nos corações dos familiares, amigos e
leitores. Ao mestre Toninho, nossa gratidão!
ANTÔNIO FERNANDES GUIMARÃES,
UM AUTODIDATA APAIXONADO PELA ARTE DE ESCREVER
Por Daniel Cristian
Olhar profundo, como de quem está apenas
observando. Pouca fala, para não chamar a atenção, mas com uma disposição de
menino para viver e fazer aquilo que sempre gostou: desenhar os detalhes da
vida com a escrita. Nome de origem portuguesa e raízes fincadas em solo
norte-mineiro, Antônio Fernandes Guimarães, também conhecido como Toninho
Orelha Branca, apelido carinhoso atribuído pelos colegas ao longo dos anos, foi
descoberto através das letras. De origem simples, nasceu em 1º de novembro de 1947,
em Mato Verde, município interiorano das Minas Gerais. Terceiro, de uma família
de oito filhos, do humilde casal Olímpio Fernandes Guimarães, pequeno
comerciante, e Carmelita Ribeiro Guimarães, doméstica, Antônio, em razão das
circunstâncias adversas que enfrentaram, aprendeu, desde criança, a lidar com
os altos e baixos da vida.
Aos sete anos, como qualquer criança normal
para essa idade, além de envolver-se com o encantamento do carrinho de boi e
outros brinquedos da época, ele já começava a passear pelo mundo da leitura.
Com uma memória que nunca falha, ele se recorda de seus livros de cordel. “Antigamente, cordel era o meu preferido e
foram todos adquiridos na feira. Contava histórias ricas de lampião, dos
nordestinos”, conta. Como inspiração nata, a escrita era uma possibilidade
promissora para quando chegasse a hora do jovem TOB, abreviatura de seu apelido,
se decidisse pela carreira e, por isso, se engajou em muitas atividades
relacionadas: no colégio era um dos que escreviam o jornal dos estudantes e,
pela sua dedicação, chegou a ser selecionado para o Colégio Irmãs Maristas,
onde seria preparado para ser padre. Com a notícia, na família era só festa. “Isso se dava ao meu esforço e à leitura,
mas não era o meu destino”, convence-se. E nem a conclusão dos estudos era
seu destino.
Tempos mais tarde, já em 1966, no Ginásio,
Antônio foi submetido a um exame para aprovação nas matérias, porém, por conta
de uma reprovação em Inglês, decidiu abandonar os estudos. E abandonou. “Antigamente, meus pais eram simples e não
puderam me impedir de fazer essa besteira, da qual hoje me arrependo, pois foi
um erro crasso, grosseiro”, explica.
Com isso, esse jovem sonhador se voltou ao trabalho: foi garçom no Clube
Social, em restaurantes e bares, morou em outros municípios e trabalhou em
serviços diversos. Mas sua formação na verdade foi autodidata, já que não
concluiu os estudos para que pudesse almejar uma faculdade e a conclusão de um
curso superior.
Antônio enfrentou muitos desafios após o
abandono dos estudos e decidiu que era hora de prestar concursos públicos para
sua estabilidade financeira. Em 1968, com muita fé e entusiasmo, inscreveu-se, competindo
com dezenas de candidatos, para um Concurso do Banco do Nordeste do Brasil para
a função de Contínuo/Servente. Considerando a sua escolaridade, as chances eram
improváveis, mas o desejo de vencer falava maior que a realidade. Como não
tinha dinheiro para se preparar com materiais comprados, ele se virava como
podia: livros emprestados e notícias de jornais, aliados a dois instrumentos de
sua propriedade: a leitura e a escrita. Pouco tempo depois, ele recebera a
notícia: a aprovação em 3º lugar no Concurso. “Foi um susto, porque era muita gente. Estava morando no Ramalhudo dos
Mártires, na parte mais distante da sede do município de Porteirinha,
trabalhando em serviços braçais”, relembra emocionado. Ele não chegou a
ocupar a vaga no banco, devido ao número limitado de vagas para aquela função.
E o tempo para esse autodidata não o
decepciona nunca. Em 1997, com 50 anos, prestou e foi aprovado no Concurso na Prefeitura
de Porteirinha, quando era ainda funcionário contratado, onde ainda exerce a
função de escrita. Desde o início da carreira, TOB cumpre o mesmo ritual de
sempre. É o primeiro a chegar ao trabalho e, quase sempre, o primeiro a sair,
sempre muito pontual com os horários. Ao acordar pela manhã, se prepara para
mais um dia de rotina, que é a de escrever as correspondências da Prefeitura. Deixa
a sua casa todos os dias às 6h30 pra apreciar o nascer do sol, o canto dos
pássaros e o acordar veloz da cidade. “Nada
se compara chegar ao trabalho depois de apreciar tanta beleza natural. É como
se fosse uma injeção de ânimo”, explica.
Sentado em uma mesa de escritório quadrada, sobre
ela um computador, livros de
leitura diária e um pote com algodão, clips e
canetas. Como de costume, escreve diariamente as correspondências oficiais do
órgão público. A cena já faz parte da rotina de TOB, há décadas. “Já perdi a conta de quantos ofícios já
escrevi. O que sei é que foram muitos, sendo que alguns foram encaminhados até
para a presidência da república”. Duas curiosidades na sala e na maneira do
auditada chamam a atenção de longe: a primeira é uma antiga máquina de escrever
escorada no chão, ao lado de sua mesa de trabalho. Antônio hoje ainda possui a
Olivetti College como objeto de decoração de sua sala de trabalho, mas em sua
fala emocionada e olhos minados de lágrimas, como quem segura o choro, ele
deixa escapar outras memórias do passado. “Fui
criado na época da máquina de escrever. Aquele barulho, o ‘tec-tec-tec’, era a
minha meditação. Muitos dos meus textos que ainda guardo possuem essa marca de
escrever em preto e vermelho, inconfundível, levado pelo tempo. É um hábito que
ainda está enraizado em mim, pensei que escreveria assim por toda minha vida.
Mas tive que parar”.
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Em 1980, Toninho e o pequeno Eric Daniel, filho do amigo João Cantuária |
Diante das novas tecnologias digitais, TOB se
viu em uma grande encruzilhada sem uma direção para onde ir. Para não se tornar
um totalmente analfabeto digital, precisou encarar os novos botões da máquina,
o mouse e todos os processadores do computador, que nem de longe se pareciam
com aquela que ele mantinha um casamento de escrita duradouro. “Nela, a máquina de escrever, foram
redigidos boa parte dos meus textos, artigos, acrósticos e críticas aos
jornais”, conta. “Nela era mais
simples, bastava colocar a folha, alinhar na máquina e escrever, escrever e
escrever até preencher toda a folha”, relembra. Hoje, TOB possui um
computador e, para aprender, nem foi preciso aperfeiçoamento, na verdade,
bastou a curiosidade para identificar a existência do Word e as teclas
principais para formatação e pesquisa.
Uma segunda curiosidade é um tanto quanto
estranha. Desde que passou a utilizar o computador, escrever para ele passou a
ser em um único arquivo de Word, que hoje passam das 1.000 páginas, e que com
muita facilidade sabe onde localizar cada um de seus ofícios e correspondências.
Esses anos também foram cruciais para outras tarefas do autodidata. Uma delas é
que, enquanto escritor, ele possui uma característica única e inconfundível: gosta
de homenagear as pessoas com acrósticos. Essa prática é direcionada aos amigos
íntimos e neles, o autodidata descreve as pessoas, acontecimentos e lugares.
Se o mundo da escrita permite a todos escalar
horizontes, para TOB isso é ainda mais animador. Ele pode escrever sobre o que
desejar. Desde 1966, participou de muitas campanhas políticas no município, o
que lhe rendeu muitos escritos. São textos de sua memória sobre a maneira como
os candidatos se portavam no palanque, as estratégias de cada um deles, o histórico
de candidaturas e outras afinidades mais. E ele fez questão de espalhar várias
cópias nas escolas, bibliotecas do pequeno município sertanejo e entre seus
melhores amigos.
A saudade desta época é visível em sua
expressão e o motivo é facilmente descoberto. “A política atual não é como daquela época. Ela está aí decepcionando
de norte a sul”, lamenta. Por acreditar que, como cidadão, tem o dever de
contribuir com a discussão política no Brasil, ele passou a escrever sobre esse
tema e não apenas comentar suas andanças. Nos jornais de maior circulação do
Estado de Minas, foram mais de 60 textos publicados nas páginas de opinião dos
leitores. Alguns textos não foram publicados por conterem assuntos polêmicos.
Com as lembranças ainda muito vivas em sua
memória, ele se lembra de alguns momentos com amigos também apaixonados pelas Letras.
Um deles é o jornalista Itamaury Teles, amigo de infância, carinhosamente
chamado por ele de Táma. Conhecidos desde meninos, os dois acompanharam a
evolução um do outro com o relacionamento com os livros. “Ganhei do meu amigo o livro “Urubu de Gravata” e sinto muito orgulho
de ter recebido o livro autografado por um amigo tão próximo e que muito
admiro”, destaca.
Agora, quase nos 71 anos, Toninho passou a
colaborar com a Folha de Porteirinha e
Região, um jornal impresso de circulação
regional. Em sua coluna, o escritor faz questão de expor suas crônicas, sempre
reflexivas, fatos da vida, contos e curiosidades. Tão brilhantes como seus
acrósticos, são seus textos de opinião sobre cultural, política e vida. “É uma honra poder contar com os escritos de
Toninho Orelha Branca em nosso jornal. Temos gratidão por ele nos brindar com suas
sábias palavras e reflexões e além de tudo contribuir para que nosso jornal
cumpra de fato a missão de valorizar a cultura e o povo de nossa terra”,
conta Helen Borborema, amiga de TOB e diretora geral do jornal.
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Foto: Daniel Cristian |
Ao longo da vida, os incontáveis livros,
leituras e autores como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Clarice Lispector
e tantos outros sempre o acompanharam, dias e noites, em imensuráveis
narrativas recheadas de emoção e conhecimento que construíram o perfil do
auditada da maneira como é conhecido hoje: crítico, observador e com
sensibilidade para a vida. O transbordar de alegria é visível quando o escritor
se refere ao seu maior amor, que tem nome e pode ser medido em alguns números:
sua família, composta por sua esposa Dona Ângela Maria de Jesus Guimarães, seus
quatro filhos carinhosamente nomeados por ele: Mírian Mariana Fernandes
Guimarães, Antônio Gradson D’Ângeles Fernandes Guimarães, Abrahan Pallacius
Olímpio Carmelito Fernandes Guimarães, Mateus Ariosto Fernandes Guimarães e seu
neto Álefe Dominick Guimarães. E, claro, seus escritos. TOB conta que é feliz,
“graças a Deus”, um homem vivido e de muitas boas histórias para contar e
escrever.
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